[sobreventos]

O vento se dispersa pela sua rapidez ou é apenas uma característica?

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[ekundayo]

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Um defeito de cor é um livro que não consigo terminar de ler. Leio cada página querendo que ela se prolongue para que eu possa “ouvir” mais historias da personagem Kehinde, trazida à tona por Ana Maria Gonçalves. No fundo acredito que tenho medo de terminá-lo pela simples falta que ele pode fazer, assim como temo tantas outras faltas de vícios e problemas.

Na iminência de uma nova obrigação junto aos meus ancestrais, cuja responsabilidade e preparação confesso pouco cuidei, temo confrontar vícios antigos, medos atuais e características que não gostaria de possuir. Olhar para o passado, e para si próprio, não é um exercício fácil; menos ainda perdoar-se, encontrando os reais motivos de seus defeitos e problemas, assim como fez Kehinde.

Há no livro uma palavra que traduz esse sentimento: Ekundayo; algo como “alegria que advém da tristeza” ou mesmo “tristeza que é alegria”. Gosto muito dela. Mas não tenho certeza do quanto consigo compreendê-la.

Written by Marcos Corrêa [Kiambu]

[21, novembro | 2013] at [12:32 am]

Publicado em [livros], [tempestidades]

Imortalidade em Tolkien

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Lendo Silmarilion, de J.R.R. Tolkien, sobre a construção de Arda, o mundo da Terra Média da história de Senhor dos Anéis, uma coisa me pareceu uma excepcional sacada de gênio.

“… os Elfos acreditam que os homens costumam ser motivos de tristeza para Manwë, que conhece a maior parte da mente de Iluvatar. Na opinião dos Elfos, os homens são mais parecidos com Melcor do que com qualquer outro Ainur, embora Melcor sempre os tenha temido e odiado, mesmo aqueles que lhe prestaram serviço. Inclui-se, nesse dom de liberdade, que os filhos dos homens permaneçam vivos por um curto intervalo no mundo, não sendo presos a ele e partam logo para onde os Elfos não sabem. Ao passo que os Elfos ficam até o final dos tempos e seu amor pela terra e por todo o mundo é mais exclusivo e intenso. Por esse motivo e com o passar dos anos, cada vez mais cheio de tristezas. Pois os Elfos não morrem enquanto a terra não morrer a menos que sejam assassinados ou que definhem de dor e somente a essas duas mortes aparentes eles estão sujeitos. Nem a idade reduz sua força a menos que estejam fartos de dez mil séculos e ao morrer eles são reunidos na morada de Mandus em Valinor de onde podem depois retornar. Já os filhos dos homens morrem de verdade e deixam o mundo, motivo pelo qual chamados de hóspedes ou forasteiros. A morte é seu destino, o dom de Ilúvatar que com o passar do tempo até os poderes hão de invejar. Melcor, porém, lançou suas sombras sobre esse dom, confundindo com as trevas, e fez surgir o mal do bem e o medo da esperança.”

Segundo esse trecho, entre os filhos de Ilúvatar (Elfos e Humanos), o maior dom que o criador poderia ter dado para eles foi a morte uma vez que a imortalidade (num mundo como a Terra Média, povoado por seres belos, mas por dor e sofrimento, fruto da maldade construída por Melcor e os Maiar como Sauron que ele corrompeu) traria, naturalmente, a tristeza aos corações dos imortais que a Arda e as suas tragédias estariam eternamente ligados. Já entre os humanos essa tristeza era substituída pela esperança, natural dos seres transitórios, hóspedes.

Tanto os Homens quantos os Elfos, incluindo os Anões (criação de Aulë à revelia de Ilúvatar) possuíam o que Tolkien chamou de Chama Imperecível, artifício de Ilúvatar capaz de dar vida aos seres por ele abençoados, tornando-se então cheios de desejos e vontades, não sendo meros títeres de seu criador, assim como eram os Valar e os Maiar.

Assim, sujeitos às vontades e desejos dos seres criados por Ilúvatar (incluindo aí Melcor e seu sucessor, Sauron), os Elfos, os mais belos e inteligentes seres criados, invejavam dos humanos a capacidade da esperança, fruto do presente da transitoriedade dada pelo criador. Fantástico!

Written by Marcos Corrêa [Kiambu]

[14, fevereiro | 2012] at [4:31 pm]

Publicado em [brisas leves], [livros]

[a transparência é sempre perturbadora]

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Como eu podia ser assim tão transparente para ele quando, pelo menos em cinqüenta por cento das vezes, não fazia a menor idéia do que estaria passando pela sua cabeça? E era eu que ia ao colégio. Era eu que sabia ler e escrever. Era eu o inteligente. Hassan não era capaz de ler nem um livro de primeira série, mas podia me ler com a maior facilidade. Era um tanto perturbador, mas também um pouco reconfortante ter alguém que sempre sabia do que você estava precisando. (O caçador de Pipas, pág. 90)

Written by Marcos Corrêa [Kiambu]

[27, maio | 2008] at [8:43 am]

Publicado em [frases], [livros]

[timbuktu, de paul auster]

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Mr. Bones não odiava Willy G. Natal, seu antigo dono, por uma vida inteira sem regalias e pelos descuidos com sua saúde. Mr. Bones o amava pela forma como ele o tratava. Mesmo desatendo às suas necessidades caninas, ou vivendo como um, Willy via em Mr. Bones um confessor, alguém cujos pensamentos eram parecidos.

A vida com Willy tinha sido boa, mas talvez esta agora [com Polly] fosse ainda melhor. Pois a triste verdade era que poetas não dirigem e, embora viajem muito a pé, nem sempre sabe aonde estão indo (Timbuktu, 114)

Depois que Willy partiu para Timbuktu – lugar para onde vão  os mortos segundo Willy – Mr. Bones não poderia supor que houvesse lugar melhor – lá, pelo menos, os cães falavam e ele poderia se expressar. Mesmo depois de encontrar Polly e ver nela um ser parecido com seu antigo dono, ele havia se preparou a vida inteira pra conhecer Timbuktu. É pra lá que ele deve ir.

Written by Marcos Corrêa [Kiambu]

[1, fevereiro | 2008] at [2:03 pm]