[sobreventos]

O vento se dispersa pela sua rapidez ou é apenas uma característica?

[meu não-perdão]

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Em 2014, fruto de uma das inúmeras frustrações do desastroso relacionamento com minha mãe, postei o vídeo abaixo: um recorte do filme “Prayers for Bobby”, dirigido por Russell Mulcahy, e lançado em 2009. Nunca assisti o filme antes de postar essa passagem, na qual Sigouney Weaver protagoniza uma mãe arrependida por ter imposto ao filho sua convicção religiosa contrária à homosexualidade. Nesse trecho em especial, Weaver interpreta a história real de Mary Griffith que decide expor sua vida e a tragédia que protagonizou diante de religiosos, políticos e das imprensa, exatamente no momento em que era votado uma lei que limitava os direitos LGBT na cidade de Walnut Creek, nas proximidades de San Francisco. Trata-se de uma cena até piegas, mas que ainda hoje, assistido dezenas de vezes, ainda me emociona; não sem sentido.

Quando assumi minha homossexualidade para minha família, há mais de vinte anos, a reação deles, em especial da minha mãe, não foi muito diferente da reação de Griffith. Como seria “normal” ela protagonizou diversas ofensas, incompreensões e ameças à sua própria vida como forma de encontrar alternativas àquilo que ela não compreendia e/ou não queria compreender. Ouvi, e não foi fácil, a afirmação de que ela preferia me ver como bandido a como homossexual. Foi, e ainda é difícil pra ela? Sim. Mas não menos do que pra mim! Estou sendo egoísta? Sim. Mas não menos que ela! Trata-se, sei disso, de uma questão delicada, que lida com dores, identidades e expectativas que se criam perante aqueles que amamos. Mas penso que estou num momento no qual há muito mais em jogo que apenas minha relação com ela.

No ultimo domingo, dia das mães, fomos almoçar na casa da minha sogra. Além da família do meu companheiro, ainda estavam uma tia sua, seu marido e filhos. Como é normal, não me furto a fazer carinho nele na frente de qualquer pessoa. Confesso que chegar a isso foi processo bem difícil, mas que com o tempo acabei vencendo parte de minha insegurança e hoje busco tratar de forma natural. Acredito também que não seja nenhum problema para os pais do meu companheiro, e, de verdade, não me importo com o que desconhecidos pensam sobre isso. Mas a reação da minha mãe com esse dado ainda me causa muita irritação e mágoa. Na mesa, diante de todos que almoçavam, em uma conversa de “segundo plano” com a tia de meu companheiro, ela deixou claro que “não precisa ser assim, podia ser mais discreto, mas fazer o quê, né?”.

Minha primeira reação naquele dia foi querer gritar com ela na frente de todos. Mas preferi ser “discreto”, até para evitar uma “saia justa”, afinal, não estava em minha casa. Preferi sair da mesa. Mas a “discrição” sempre me pareceu uma reação covarde diante de uma enxurrada de apontamentos grosseiros e desrespeitodos contra a homossexualidade. Fiz algo que me arrependi. Deveria ter deixado claro naquele momento que aquilo me ofendeu muito. Já o fiz em outros momentos com ela, não uma ou duas vezes, mas dezenas. E, parece-me, não adiantou de nada! Em sua cabeça doente, a “discrição” é o melhor modelo para um homossexual seguir. Afinal, isso soa como “tudo bem ser veado, mas só na sua casa, distante de todos”; afinal, não é “normal”. Ou algo como “ele é gay, mas é muito respeitoso”, como se houvesse uma prática natural de respeito vindo dos heterossexuais. Como se agir como Marry Griffith, exigindo que o filho fosse “discreto” e se enquadrasse nas normas sociais, fosse a melhor coisa para ele. Egoísmo, incompreensão, pobreza de pensamento! Parece meio sintomático retomar [Sobreventos] exatamente com este post, antecedido do filme “Prayers for Bobby”.

Acompanho minha mãe pelo Facebook e nunca a vi “curtir” nada que de algum modo refletisse minha homossexualidade. Ela curte várias coisas em minha timeline, mas nada que tangencie momentos felizes nos quais minha vida real; aquela da qual tanto lutei, não tenho medo e me encho de orgulho ao pegar na mão do meu companheiro no meio da rua.  Curte apenas aquilo que lhe parece “discreto”. Fico me perguntando se ela sabe que minha vida real é a única que me dá alegria, não a que finjo ter ao lado dela, fazendo-a acreditar que a amo tanto que conseguiria superar seu preconceito contra minha sexualidade, seu nojo por minha “indiscrição” e seu desejo de que, ainda hoje, eu tivesse uma vida “normal”.

Há algo muito cruel em seu anseio por minha discrição, que me afeta de maneira muito cruel. Ela semrpe foi uma pessoa muito discreta e se rodeou de pessoas muito discretas. Inclusive, o homem que me estuprou, seu cunhado, agia com muita discrição, destroçando parte da minha infância. Foram, ela e ele, muito discretos. Ainda havia uma disputa nojenta por atenção, protagonizada por ela e uma de suas irmãs, que agiam de forma muito discreta enquanto um primo me espancava na frente delas. Tudo muito discreto! Nojentamente discreto.

Não! Minha mãe jamais será Mary Griffith. E espero que seu arrependimento seja enorme por optar pela “discrição” a enxergar quem realmente está ao seu lado.

Já eu, não optarei pelo mesmo destino de Bobby. De minha parte, fiz tudo para que pudéssemos conviver e crescer. Não me arrependo de nada!

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Written by Marcos Corrêa [Kiambu]

[12, maio | 2016] às [8:25 pm]

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