[sobreventos]

O vento se dispersa pela sua rapidez ou é apenas uma característica?

[se política eu faço na rua, punheta eu bato em casa, não vendo 300 de Esparta]

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Recentemente entrei numa guerra. Embora não seja tão viril, lindo e forte que mereça ser visto por milhões de espectadores, ouso andar na contramão e levantar os teclados do meu computador contra os 300 de Esparta. Sim, apaixonei-me por uma guerra por conta do desastre de outra na tela. O filme, cuja propaganda no Brasil aponta para a participação do nosso ‘melhor’ ator, Rodrigo Santoro no papel de Xerxes, consegue reunir o que há de pior tanto na abordagem histórica, quanto na licença “poético-político-oficial” do seu diretor.

É impossível não comparar o filme de Zack Snyder com o clássico alemão Olympia, de Leni Riefensthal. O olhar nazista da diretora alemã sobre os corpos dos atletas olímpicos de 1936 era a perfeita tradução das políticas sociais racistas implementadas pelo Terceiro Reich. Seria exagero meu dizer o mesmo do desconhecido diretor de “Madrugada dos Mortos”, uma vez que sua importância, diante de Riefensthal, é quase insignificante. Entretanto, o princípio visual e discursivo é o mesmo: a moralidade através da perfeição física. Ou, segundo o crítico da Folha de São Paulo, Cássio Starling Carlos, “o triunfo da força e da disciplina contra a tirania e o misticismo parecem extraídos de um manual fascista”.

Talvez os assexuados não o vejam, mas para aqueles que ainda se permitem excitar, pelo menos uma excitação crítica, é impossível não perceber no filme um olhar absolutamente nazista (norte-americanamente revisitado) sobre a ‘perfeição’ espartana e a ‘imperfeição’ persa. Melhoro: a perfeição ocidental (Esparta e seus homens musculosos cheirando a virilidade e testosterona) e a imperfeição oriental (Pérsia e seus homens imperfeitos, negros e lascivos).

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Gerard Butler, Rei Leônidas

Se nos quadrinhos de Frank Miller o rei Leônidas aparece coberto pelo seu manto vermelho, no filme de Snyder ele só falta aparecer nu. Cada milímetro do corpo escultural do ator Gerard Butler, 37, e seus espartanos, aparece esquadrinhado na tela do cinema para o delírio adolescente (feminino ou gay), o assassinato do quadrinho de Miller (lançado em 1998), e uma apologia histórica extremamente impertinente nos dias de hoje. Não é sem sentido que o filme recebeu duras críticas vindas do Oriente Médio.

Se há em 300 uma característica que extrapola a sexualidade, cujos odores masculinos podemos sentir na tela, é a sua metáfora da sociedade norte-americana. Os 300 espartanos de Frank Miller talvez estivessem longe dessa aproximação. Entretanto, os mesmos 300 de Zack Snyder fazem o caminho contrário. O filme faz qualquer propaganda pró-guerra parecer um spot de quinze segundos numa rádio do interior do país. Ele é uma apologia da mais importante ação militar norte-americana contemporânea: uma cruzada contra, nas palavras do único sobrevivente dos 300 no filme, “o misticismo e a tirania” do oriente. Mais direto e didático, impossível.

Para Snyder, tentando seguir a narrativa pouco linear da história em quadrinho, um grupo de 300 homens LIVRES (os atores espartanos mais importantes no filme são interpretados por norte-americanos), os melhores, mais belos, perfeitos e coerentes, liderados pelo seu rei, Leônidas, o mais corajoso e consciente dentre eles, saem em uma cruzada suicida. Em Termópilas, 480 anos antes de Cristo, lutam para livrar o mundo do mal. Este, simbolizado por um rei, Xerxes (estrangeiro, brasileiro, liderando uma legião de estrangeiros e escravos), gigante (por isso mesmo fisicamente disforme), místico, caricato, promíscuo e gay (não tentem me provar o contrário), tenta subjugá-los, forçando-os a abdicar a liberdade e tudo o que defendem (amor, pátria, democracia), diante de sua ‘fictícia’ força e divindade.

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Gerard Butler, Leônidas e Rodrigo Santoro, Xerxes

Alguma aproximação com uma história moderna? Sim. Mas elas não param aí.

Ainda seguindo o raciocínio do diretor, enquanto em Termópilas os 300 de Esparta lutam por sua distante terra, ela se corrompe. Theron, político (deputado), símbolo maior da liberdade e democracia espartana (congresso norte-americano?), se rende ao poder do rei persa e se vira contra o Leônidas. Nem mesmo o sagrado que habita as terras gregas, os lascivos, corruptíveis e deformados éforos, guardiões da sabedoria mística milenar, conseguem se manter firmes diante do poder persa.

Dramático? Bobagem!!! Ainda não acabou. O diretor consegue ainda piorar a situação.

Para Snyder, nada mais é sagrado em Esparta (Estados Unidos?); apenas a paixão de 300 mártires da liberdade. Contra eles e a liberdade, até os próprios espartanos. Contra o mundo livre, a arrogância disseminada pelos desconhecidos e místicos orientais que buscam subjugar as terras livres do mundo ocidental e impor sua doutrina exótica. Xenofobismo puro!

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Gigante escravo que luta pelo exército de Xerxes

Para o diretor entretanto, ainda há esperança. E é uma mulher que consegue fazê-la ressurgir (afinal, como afirmavam as espartanas, são elas quem parem verdadeiros homens). Gorgo, esposa de Leônidas, revela ao parlamento a traição do deputado Theron. Se corrompeu também, ao se entregar a Theron; afinal, nada mais é sagrado em Esparta. Mas sua revelação faz com que a Grécia se una e aprove uma guerra contra os pérsios.

Na visão do diretor, sua atitude faz com que, historicamente, as bases da civilização ocidental sejam preservadas. Talvez aqui a única visão historicamente coerente e perfeitamente aceitável da arrogância e inconseqüência de Snyder. Mas há também aí uma aproximação entre a guerra travada em Termópilas e uma que se realiza dois mil e quinhentos anos depois. 

Mas é o sacrifício do único homem lúcido da humanidade, Leônidas, acompanhado por seus 300 seguidores, que vai salvar o mundo. E é um mensageiro seu quem retorna à Esparta, e convence os ‘menos coerentes e lúcidos’ a guerrearem contra o mal. Ele é o mensageiro disseminador. Leônidas, o mártir absoluto. Ufa!

Virilidade e testosterona são tudo de bom. Mas economizem minha inteligência.

Written by Marcos Corrêa [Kiambu]

[2, abril | 2007] às [4:04 am]

Publicado em [cinema]

8 Respostas

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  1. bem, parece que vc não gostou muito do filme! rsrrsrsrs
    Lundi me falou muito mal dele tb.
    Pelo visto, apesar de ter os elementos do quadrinho de Miller, eles mudaram o tom de tudo!
    que pena

    sandy

    [7, abril | 2007] at [2:29 pm]

  2. Oh my God… palmas pra teu texto… vc falou tudo que eu pensei sobre o filme… excelente mesmo…

    Régis

    [18, julho | 2007] at [6:30 am]

  3. Ae galera,visitem minha home page e deixem recados:
    http://www.livrodevisitas.com.br/ler.cfm?id=120502

    Regis

    Regis

    [18, julho | 2007] at [10:56 am]

    • gostei bastante do filme ele é muito interessante,e para quem adora aprofundar conhecimentos q ainda n assistiu precisava de uma seçaõ….

      nayane

      [18, março | 2011] at [1:51 pm]

  4. O Antiamericanismo se torna uma ferramenta simples para uma crítica pouco palpável históricamente. De fato o virilismo entre os espartanos deveria ser muito mais físico que sexual, afinal, gregos são gregos. Mas não se esqueça do contexto histórico, marcas e provas da virilidade física dos espartanos. Podemos ver isso nas representações em estátuas ou pinturas da época, a diferença notavelmente grande não nos deixa dúvida no apontamento e seleção entre Espartíatas e Hilotas. Séculos de seleção das melhores crias os fez realmente um povo forte fisicamente, é só relembrar um pouco os métodos para isso.
    Então criticar esta forma de visão é sem dúvida pessoal. Não se esquecendo que o conceito ariano vem exatamente dos povos gregos, e tenho lá minhas dúvidas se os espartanos não eram dezenas de vezes mais “nazistas” que os próprios.

    Deixando de lado é claro, o parte Pérsia, que foi ridiculamente representada, com direito ao oriente de torcer o bico.

    Giovanni

    [20, agosto | 2007] at [8:22 pm]

  5. Veja, Giovanni. Esta não é uma crítica histórica, e sim cinematográfica.

    Marcos Corrêa

    [21, agosto | 2007] at [8:50 am]

  6. Boa tarde.
    Não vou fazer nenhum tipo de comentário sobre filme, que achei muito bom (e não só eu, como os mais de 400 milhões de dólares arrecadados confirmam), e muito menos sobre a fidelidade de Snyder à obra original (que se confirma em quase toda a fita, exceto talvez pela importância em demasia da rainha Gorgo) ou sobre o talento do diretor, mas sim pelo tom que o autor usou ao escrever a crítica… Usou termos como xenofobia e nazismo ao mesmo tempo em que foi extremamente preconceituoso, talvez mais do que os espartanos do filme, demonstrando algum problema com relação aos homossexuais, bem como algum sentimento muito terno pelos norte-americanos.
    Uma pena. Desperdício de uma bela crítica, que acaba se mostrando um opinião pessoal tão fascista e preconceituosa quanto o filme possivelmente poderia ser, e acaba não tendo uma base adequada, nem mesmo quando cita a obra de Miller.
    Uma pena.

    Edgard

    [27, dezembro | 2007] at [3:06 pm]

  7. Pois, eu sou da mesma opiniao… este filme é uma m e r d a

    harry

    [1, fevereiro | 2009] at [9:29 am]


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