[sobreventos]

O vento se dispersa pela sua rapidez ou é apenas uma característica?

[para não me passar por descuidado]

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Fiz um desabafo profundamente necessário há pouco mais de dois dias. Julguei-o necessário, num momento de profunda incredulidade daquilo que achava ideal no meu relacionamento com minha mãe. Não sei se por exagero, ou se movido por uma dor que carrego há anos, me permiti tal acesso. Enfim… Ainda não se passaram dias necessários para absorver aqueles pensamentos, mas hoje acendeu-me uma questão que, igualmente, preciso expressar.

Já ouvi de pessoas muito próximas, e compartilho de tal pensamento, que há pessoas que não nos merecem. Sejam amigos, parentes ou amantes, é possível nos depararmos com pessoas para as quais nos dedicamos de forma global e cujo resultado não ultrapassa parte do tempo e da energia gasta nesse relacionamento. Normalmente avaliamos isso em relação a amigos, namorados, chefes, empresas etc. Dificilmente associamos isso aos nossos pais e mães: seres misticamente intocáveis, cuja função é revestida socialmente de uma fórmula sacrossanta. Pois bem: minha mãe não merece o filho que tem!

Certamente, em outras postagens, voltarei a esse tópico como uma tentativa de desculpabilizá-la, mas hoje, sobremaneira, é indefectível que ela não mereça aquilo que me tornei; parte como resposta às sua própria existência. E volto aqui à questão da “discrição”.

Lembro-me da minha primeira consulta astrológica com o Marcio Cassoni. Numa leitura extremamente acertada, ele me possibilitou ajustar algo que julgava um defeito: minha indiscrição. Na sua análise, ele afirmava que eu era o tipo de pessoa cuja presença no mundo não era compatível com regras ou com códigos padronizados de conduta. “Onde tem uma regra você vai lá para questioná-la, para quebrá-la”. Guardada suas devidas proporções, essa é uma característica que efetivamente me destaca, não pelo seu exagero, mas pela admissibilidade dessa certeza. Não passo despercebido, e uso desse artifício como forma de contribuir para melhorar o mundo ao meu redor; mas é preciso que as pessoas estejam aptas a também quererem melhorar. E parece que, por onde passo, com as pessoas que convivo e que me são caras, essa característica é a que me particulariza diante da previsibilidade das coisas e das relações pessoas.

Apesar de pequenos conflitos, a fórmula funciona bem; exceto para minha mãe que prefere ainda acreditar que essa seja minha pior característica!

Lamentável!

Written by Marcos Corrêa [Kiambu]

[15, maio | 2016] at [6:36 pm]

[meu não-perdão]

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Em 2014, fruto de uma das inúmeras frustrações do desastroso relacionamento com minha mãe, postei o vídeo abaixo: um recorte do filme “Prayers for Bobby”, dirigido por Russell Mulcahy, e lançado em 2009. Nunca assisti o filme antes de postar essa passagem, na qual Sigouney Weaver protagoniza uma mãe arrependida por ter imposto ao filho sua convicção religiosa contrária à homosexualidade. Nesse trecho em especial, Weaver interpreta a história real de Mary Griffith que decide expor sua vida e a tragédia que protagonizou diante de religiosos, políticos e das imprensa, exatamente no momento em que era votado uma lei que limitava os direitos LGBT na cidade de Walnut Creek, nas proximidades de San Francisco. Trata-se de uma cena até piegas, mas que ainda hoje, assistido dezenas de vezes, ainda me emociona; não sem sentido.

Quando assumi minha homossexualidade para minha família, há mais de vinte anos, a reação deles, em especial da minha mãe, não foi muito diferente da reação de Griffith. Como seria “normal” ela protagonizou diversas ofensas, incompreensões e ameças à sua própria vida como forma de encontrar alternativas àquilo que ela não compreendia e/ou não queria compreender. Ouvi, e não foi fácil, a afirmação de que ela preferia me ver como bandido a como homossexual. Foi, e ainda é difícil pra ela? Sim. Mas não menos do que pra mim! Estou sendo egoísta? Sim. Mas não menos que ela! Trata-se, sei disso, de uma questão delicada, que lida com dores, identidades e expectativas que se criam perante aqueles que amamos. Mas penso que estou num momento no qual há muito mais em jogo que apenas minha relação com ela.

No ultimo domingo, dia das mães, fomos almoçar na casa da minha sogra. Além da família do meu companheiro, ainda estavam uma tia sua, seu marido e filhos. Como é normal, não me furto a fazer carinho nele na frente de qualquer pessoa. Confesso que chegar a isso foi processo bem difícil, mas que com o tempo acabei vencendo parte de minha insegurança e hoje busco tratar de forma natural. Acredito também que não seja nenhum problema para os pais do meu companheiro, e, de verdade, não me importo com o que desconhecidos pensam sobre isso. Mas a reação da minha mãe com esse dado ainda me causa muita irritação e mágoa. Na mesa, diante de todos que almoçavam, em uma conversa de “segundo plano” com a tia de meu companheiro, ela deixou claro que “não precisa ser assim, podia ser mais discreto, mas fazer o quê, né?”.

Minha primeira reação naquele dia foi querer gritar com ela na frente de todos. Mas preferi ser “discreto”, até para evitar uma “saia justa”, afinal, não estava em minha casa. Preferi sair da mesa. Mas a “discrição” sempre me pareceu uma reação covarde diante de uma enxurrada de apontamentos grosseiros e desrespeitodos contra a homossexualidade. Fiz algo que me arrependi. Deveria ter deixado claro naquele momento que aquilo me ofendeu muito. Já o fiz em outros momentos com ela, não uma ou duas vezes, mas dezenas. E, parece-me, não adiantou de nada! Em sua cabeça doente, a “discrição” é o melhor modelo para um homossexual seguir. Afinal, isso soa como “tudo bem ser veado, mas só na sua casa, distante de todos”; afinal, não é “normal”. Ou algo como “ele é gay, mas é muito respeitoso”, como se houvesse uma prática natural de respeito vindo dos heterossexuais. Como se agir como Marry Griffith, exigindo que o filho fosse “discreto” e se enquadrasse nas normas sociais, fosse a melhor coisa para ele. Egoísmo, incompreensão, pobreza de pensamento! Parece meio sintomático retomar [Sobreventos] exatamente com este post, antecedido do filme “Prayers for Bobby”.

Acompanho minha mãe pelo Facebook e nunca a vi “curtir” nada que de algum modo refletisse minha homossexualidade. Ela curte várias coisas em minha timeline, mas nada que tangencie momentos felizes nos quais minha vida real; aquela da qual tanto lutei, não tenho medo e me encho de orgulho ao pegar na mão do meu companheiro no meio da rua.  Curte apenas aquilo que lhe parece “discreto”. Fico me perguntando se ela sabe que minha vida real é a única que me dá alegria, não a que finjo ter ao lado dela, fazendo-a acreditar que a amo tanto que conseguiria superar seu preconceito contra minha sexualidade, seu nojo por minha “indiscrição” e seu desejo de que, ainda hoje, eu tivesse uma vida “normal”.

Há algo muito cruel em seu anseio por minha discrição, que me afeta de maneira muito cruel. Ela semrpe foi uma pessoa muito discreta e se rodeou de pessoas muito discretas. Inclusive, o homem que me estuprou, seu cunhado, agia com muita discrição, destroçando parte da minha infância. Foram, ela e ele, muito discretos. Ainda havia uma disputa nojenta por atenção, protagonizada por ela e uma de suas irmãs, que agiam de forma muito discreta enquanto um primo me espancava na frente delas. Tudo muito discreto! Nojentamente discreto.

Não! Minha mãe jamais será Mary Griffith. E espero que seu arrependimento seja enorme por optar pela “discrição” a enxergar quem realmente está ao seu lado.

Já eu, não optarei pelo mesmo destino de Bobby. De minha parte, fiz tudo para que pudéssemos conviver e crescer. Não me arrependo de nada!

Written by Marcos Corrêa [Kiambu]

[12, maio | 2016] at [8:25 pm]

[meu perdão público]

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Written by Marcos Corrêa [Kiambu]

[18, setembro | 2014] at [3:40 pm]

Publicado em [brisas leves]

[semi-ficção documental de folhetim do herói entre dois mundos]

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No peito a dor encharca os espaços de um corpo tomado pela inconstância, como se buscasse caminhos para que pudesse fazê-lo respirar. Mas não há ar. Só esse vazio que se forma dos gritos não dados, dos desejos incontidos, das palavras guardadas e das inúmeras ausências. Aprendi-o assim.

Talvez essa dor inconstante trazida pelo humor do tempo tivesse um peso diferente se pudesse refazer os caminhos que tive. Mas talvez mesmo ela seria outra dor. Possivelmente, se tivesse evitado encontrar o inesperado, a dor fosse a da incompletude. Não igual a esta que hoje sinto. Mas uma outra, parecida com a da incompetência de existir, de não travar uma guerra interna que aprendi-a ainda em tenra infância.

Mas aqui ela está, embrulhada num emaranhado de carne, sangue e pelos, atraentemente fétidos pelo labor do dia. E com ela eu caminho pela rua buscando as cores de uma cidade cinza até encontrar você que me atravessa com o olhar sempre atento. Que tal um unguento para passar no peito? Pergunta ele, com o corpo coberto pelo manto ocre que o torna sinistramente mágico. Como um presente, pressentindo minha falência, ele me envolve nos braços e por um breve instante eu sinto o mundo apagar e a dor sumir. Vem, eu te levo! E eu sempre vou!

Mas ao fundo, mesmo afastado pela sua presença, o vazio que aprendi antes de você chegar sente orgulho do seu encanto de sereia que não permite opção ao pescador. E a ele eu também sempre vou!

Written by Marcos Corrêa [Kiambu]

[12, dezembro | 2013] at [1:20 am]

Publicado em [tempestidades]

[citação: o caçador de pipas]

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“Como eupodia ser assim tão transparente para ele quando, pelo menos em cinqüenta por cento das vezes, não fazia a menor ideia do que estaria passando pela sua cabeça? E era eu que ia ao colégio. Era euque sabia ler e escrever. Era eu o inteligente. Hassan não era capaz de ler nem um livro de primeira série, mas podia me ler com a maior facilidade. Era um tanto perturbador, mas também um pouco reconfortante ter alguém que sempre sabia do que você estava precisando” (O caçador de Pipas, pág. 90)

Written by Marcos Corrêa [Kiambu]

[26, novembro | 2013] at [1:15 am]

Publicado em [brisas leves], [frases]

[frases]

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Não há estudo que diga por que eu gosto de picolé de limão, mas odeio coentro. Só não venha pegar no meu pé por isso! (Barbara Gancia)

Written by Marcos Corrêa [Kiambu]

[22, novembro | 2013] at [8:01 am]

Publicado em [brisas leves]

[provérbio]

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Exu matou um pássaro ontem, com uma pedra que atirou hoje.

Written by Marcos Corrêa [Kiambu]

[21, novembro | 2013] at [12:35 am]

Publicado em [tempestidades]