Archive for Novembro 3rd, 2007
[meu coração por vovô]
Minha relação com vovô sempre foi balizada pela distância que minha própria família lhe impunha. Para eles, maculados pela ausência de mais de uma década, foi difícil o fato de aceitar seu retorno depois de terem sido abandonados ainda pequenos. Personagem quase anônimo, pouco sabíamos sobre sua família, com a qual, desde que pelas paragens de Mato Grosso ancorou, jamais manteve contato. Sua morte não será sentida pelos supostos parentes cariocas que talvez já o tenham matado há décadas.
Hoje, com sua internação na UTI e, penso, a proximidade de sua morte, observo alguns pequenos detalhes que dizem muito sobre nossa família.
Nas falas, raras, de uma de minhas tias, consegui observar uma mágoa muito grande. Foi com ela que aprendi também a chamá-lo de ‘velho’. Ironicamente o mesmo apelido dado a Luiz Carlos Prestes, personagem que meu avô tanto admirava. Sua fala tem o mesmo peso da minha em relação ao ‘Martins’, pai-personagem que igualmente me ofendeu com sua ausência. Nunca o chamaria de pai.
De uma outra tia, poucas vezes ouvi chamá-lo de pai. Lauro, preferia, ao se direcionar a ele ou por ele perguntar. Usava pai, nunca papai, para dizer sobre sua filiação; só.
Pela parte dos tios da minha família, a palavra pai era mais recorrente. Talvez mais presente no tio cuiabano-carioca, ausente quase quarenta anos de casa. Mas penso que isso seja uma característica associada ao corporativismo do ser masculino. Ou talvez a pouca diferença que ele fazia em suas vidas. Quando os abandonou, ambos já estavam encaminhados. Penso até que fora de casa (não sei precisar isso). O certo é que, fora desse ciclo, a referência à figura paterna nunca foi tão presente quanto o foi a figura de minha avó, Maria; forte-doce mulher, esteio da família, e cuja ausência sinto muito forte.
Pra mim, vovô sempre foi uma figura reticente. Ou eu fui a ele. Os presentes de dia dos pais que os salesianos nos obrigavam a fazer todo ano, desrespeitando as diferenças tão incomuns em suas apostilas e treinamentos educativos, raramente iam parar no seu guarda-roupa. Iam para minha mãe. De modo contrário, os presentes de dia das crianças ou aniversário, que nunca foram comprados por suas mãos, jamais encontrariam repouso em meu armário. Era quase uma troca de gentilezas. No entanto, falando assim, pinto-o, ou a mim mesmo, com cores negativas. Elas existem, mas não são, ao menos pra mim, tão ruins. Coisas de família.
Uma das lembranças mais bonitas que tenho do vovô é sua inestimável coleção de moedas antigas cheirando a ferrugem e zinabre. Guardava-as numa caixa que ficava escondida debaixo de suas roupas, num quarto que com a morte da vovó, foi se tornando o cemitério de suas lembranças.
Outra lembrança era a sua antiga oficina. Nela ele consertava, canhestramente, quase tudo o que estragava em casa. De aparelho de barbear (daquelas giletes amarelas) a chuveiro elétrico, passando por máquinas de lavar, tudo tinha conserto em sua mão, cada dia mais velha e magra. Era lá que ele se escondia do nosso dia-a-dia, tentando ser o mais prestativo que podia. Mas, com o tempo, por medida de segurança inclusive, fomos matando-o aos poucos, retirando dele seu refúgio pois, mesmo sem conseguir segurar sequer um alicate, ele insistia em dar vazão aos conhecimentos que adquiriu como “artífice elétrico” da Marinha do Brasil.
Hoje, sabendo que vou perdê-lo, sinto-me um fraco por não ter dialogado mais com ele. Sei que dele, apesar dos acontecimentos familiares que não me pertencem imediatamente, guardarei imagens como vê-lo sentado na porta de sua casa, com seu jornal habitualmente lido (aos 94 anos lia sem axílio de óculos), esperando a dinâmica dela começar. Um entra, outro sai, mas ninguém tinha mais paciência para ouvir sua opinião de velho sobre os relatos jornalísticos do dia. Nesta, inclusive eu.
Meu peito dói, muito.